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As pandemias e as alterações climáticas poderão ser cobertas pela indústria?

Fonte: Jornal Económico 27.03.2020
As pandemias e as alterações climáticas poderão ser cobertas pela indústria?

As alterações climáticas e os cada vez mais frequentes desastres naturais, com danos a edifícios e infraestruturas, interrupção da produção económica e perda de colheitas e de vidas, é uma preocupação da indústria seguradora e um dos seus maiores desafios.

Reconhecendo o impacto destas alterações climáticas - nomeadamente o crescente número de fenómenos associados como aumento da temperatura, tempestades, furacões, incêndios, terramotos ou inundações - os seguradores têm desenvolvido iniciativas para prevenção e gestão do risco e soluções inovadoras de transferência de risco. São os casos dos seguros paramétricos para colheitas e riscos catastróficos, ou as soluções "tradicionais” de seguros como o seguro de Todos os Riscos de Danos Materiais e Perdas de Exploração, que garante os danos materiais em consequência de fenómenos da natureza e as perdas de exploração, entre outros.

Contudo, os desafios não se ficam por aqui. Os efeitos das alterações climáticas aumentarão o risco de pandemia devido à alteração dos factores de transmissão de doenças, aumentando a incerteza quanto à localização, tipo e gravidade do próximo surto de epidemia. 

As soluções de seguro para pandemias ainda não estão desenvolvidas, mas o sector segurador tem sido sempre capaz de se adaptar aos novos desafios e encontrar formas de responder a novos riscos.

Nesse sentido, estão a ser desenvolvidos mecanismos inovadores de financiamento de riscos de pandemia que mobilizam fundos do sector público e privado - como o Pandemic Emergency Financing Facility (PEF) - que é um mecanismo que envolve financiamento público e privado, coordenado pelo Banco Mundial, para direcionar rapidamente fundos para enfrentar surtos de doenças infecciosas com potencial pandêmico. O PEF possui dois componentes para financiar a resposta a surtos de doenças: uma "cash window” e uma "insurance window”. A "insurance window” envolve um seguro – uma catástrofe bond - que é um instrumento financeiro usado para garantir o risco de desastres, causados por condições climáticas extremas e terramotos. Mais de 12,8 mil milhões de dólares em catastrophe bonds foram emitidos / comprados por segurados em 2018.

Os riscos associados a pandemias encontram também resposta nos seguros Vida e não Vida. Embora as coberturas dos seguros sejam diferentes entre as seguradoras, em geral os seguros de Vida garantem as epidemias e as pandemias.

Os seguros de Acidentes Pessoais Viagem garantem a cobertura de doença, geralmente sem exclusão relativa a epidemias ou pandemias desde que haja lugar a internamento hospitalar (ou cuidado médico permanente por terceiros) e/ou quarentena imposta por autoridade competente. Quanto ao cancelamento da viagem, as seguradoras diferem também no âmbito desta cobertura, mas em geral, através da cobertura de Assistência, podem ser reembolsados os custos relativos a transporte e alojamento até ao limite do capital contratado.

Pode ainda ser contratado uma garantia de Assistência de Crise, que proporciona acesso a uma Centro de Crise 24h/24H, com acesso a especialistas em respostas a situações de crise (em geral ex-militares), que por exemplo, no caso de pandemia ou terrorismo ou rapto, presta aconselhamento e organiza o repatriamento e demais assistência.

Vimos que a atual pandemia levou a maior parte das empresas a recorrer já a teletrabalho. O seguro de Acidentes de Trabalho, continua a responder, no caso de teletrabalho. 

No que respeita aos Seguros Patrimoniais, as coberturas de Perdas de Exploração, Carência de Clientes e Fornecedores e de Impedimento de Acesso são acionáveis quando decorrem de danos materiais, não sendo acionáveis no caso de pandemia (danos corporais). 

Que impacto é que os riscos associados a alterações climáticas, grandes catástrofes e pandemias terão ao nível do preço dos contratos de seguros?

O aumento da frequência de riscos associados a fenómenos climáticos extremos e pandemias representa um desafio para os seguradores e resseguradores.

As alterações climáticas são um factor significativo que contribui para eventos como os grandes incêndios (caso Califórnia e Austrália) ou inundações, que necessariamente vão levar a que as seguradoras pensem cuidadosamente sobre o preço. O preço dos seguros tem de refletir a exposição ao risco e ter em conta a frequência e severidade dos fenómenos.

No ano passado a Munich Re (um dos maiores resseguradores internacionais) anunciou que o risco de incêndios, inundações, tempestades ou granizo continuar a aumentar, pelo que a única opção sustentável é ajustar os preços face ao risco. Esta modelização dos riscos aponta para que, a longo prazo, esta situação se possa tornar numa questão social.

Estão os seguradores e os resseguradores em condições para cumprir os contratos ao nível de indemnizações aos segurados?

As seguradoras têm sempre assumido os seus compromissos, mesmo em tempos de crise. Apesar do impacto na sua rentabilidade, como foi o caso da crise económica de 2008, demostraram a sua capacidade financeira para pagar indemnizações. O sector segurador é muito regulado e exigente ao nível dos rácios, sendo muito prudente ao nível do seu balanço por forma a responder em momentos especialmente complicados.

Tem contas feitas do impacto da sua operação em Portugal com o risco de pandemia e impacto nas organizações e empresas? 

De frisar que as pandemias apresentam muitos desafios e incertezas, quer para as autoridades públicas quer para as empresas. Neste momento, com o surto do Covid-19, estamos todos os dias em gestão de crise, com novos desenvolvimentos a acontecer em todo o mundo. Por isso, é difícil neste momento estimar com rigor os impactos, embora saibamos que as empresas vão ser afetadas tanto ao nível das receitas como dos custos. Por isso, é fundamental que as empresas se preparem para a crescente ameaça de epidemias, implementando um programa de gestão e mitigação de risco, nomeadamente para a quebra da cadeia de fornecimento.

Na MDS adotámos medidas proactivas para garantir a saúde e o bem-estar das nossas equipas, clientes e parceiros, bem como a continuidade dos seus negócios. Implementámos um plano de contingência e de continuidade do nosso negócio, nomeadamente com o recurso ao teletrabalho, e continuámos a acompanhar os nossos clientes diariamente.

Temos presente que as epidemias são simultaneamente um risco de negócio e um amplificador das tendências de vulnerabilidade existentes na economia e que os negócios serão inevitavelmente afetados, com efeitos no curto prazo e consequências menos esperadas no longo prazo.

As empresas podem ser afetadas de diferentes maneiras, dependendo do sector em que atuam e da localização dos seus clientes, funcionários e fornecedores. As empresas mais dependentes de viagens ou de contactos presenciais terão provavelmente um maior impacto do que as empresas que podem operar com trabalhadores remotos e cujos negócios não dependem dos mercados nacionais. No entanto, são expectáveis impactos elevados mesmo nos negócios mais expostos aos mercados nacionais.

As restrições às viagens, o fecho de fronteiras e a quarentena que afeta milhões de pessoas, a quebra na cadeia de fornecimentos, levarão provavelmente a uma desaceleração da produção e do comércio, afetando empresas de todas as dimensões, desde a aviação, turismo, entretenimento, hotelaria, eletrónica, bens de consumo e de luxo. Estes factores, a que acrescerá um eventual aumento da taxa de desemprego, terão necessariamente impacto no sector dos seguros, tanto de forma direta como indireta.



Ricardo Pinto dos Santos - MDS Group COO, MDS Portugal CEO
Artigo publicado no suplemento Quem é quem nos seguros do Jornal Económico

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