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O mundo doente

09.10.2020
O mundo doente
Li o livro "A Terra inabitável”, de David Wallace-Wells, há cerca de um ano, quando preparávamos a edição 13 da FULLCOVER, a revista do Grupo MDS, na qual incluímos um dossier técnico sobre Emergência Climática.
O livro, de tão realista e factual, resulta aterrador. Mas por vezes a realidade supera a ficção e, em contexto de pandemia, mais aterrador se torna, porque está claramente estabelecida uma ligação causal entre a devastação causada pelo ser humano ao meio-ambiente e as suas consequências, e a emergência de novas doenças, susceptíveis de afectar a humanidade de formas imprevisíveis, ou há muito esquecidas, como infelizmente estamos a constatar.

Emergência climática
A história começa como tantas outras: "Era uma vez um lindo planeta azul e verde que contava, entre os seus habitantes, com uma raça a quem se chamava seres humanos. Ali viviam há milhares de anos até que um dia, há 150 anos, descobriram uma forma de destruir o planeta, dando início a uma coisa chamada revolução industrial”. Depois, todos sabemos o que se passou, mas o autor dá-nos informações ainda mais assustadoras, afirmando que as alterações climáticas não são reversíveis e já estão a alterar o planeta tal como o conhecemos; e que os níveis do mar continuarão a subir e certos cultivos, como o do café na América do Sul, entrarão em declínio ou irão mesmo desaparecer.
Mas estas não são as únicas repercussões. O autor indica outras consequências previsíveis das alterações climáticas, começando pela guerra, lembrando-nos que, em 2011, um milhão de refugiados sírios fugiu para a Europa por causa de uma guerra civil influenciada pelas alterações climáticas e a seca. Prossegue descrevendo o impacto negativo das ondas de calor provocadas pelas alterações climáticas sobre a saúde pública, os conflitos, a produção alimentar, a vida urbana e mesmo a cultura popular.
Há referências a uma subida dos níveis do mar na ordem dos 80 metros até ao fim do século, aos oceanos moribundos, à extinção em massa de espécies, à poluição aérea (em 2017, respirar o ar de Delhi equivalia a fumar mais de dois pacotes de cigarros por dia!) e a pestes causadas por vírus e bactérias em hibernação no Ártico que, se libertadas, poderão trazer novas pandemias.

Pandemias
E a pandemia veio. Não do Árctico – ainda – mas supostamente de um mercado chinês de venda de carne de animais selvagens - o que não surpreende, pois praticamente todas as pandemias, ao longo da história, têm sido transmitidas por animais, de maior ou menor dimensão, como os ratos (peste negra), ou os mosquitos, para não falar em epidemias mais recentes, denominadas gripe suína e gripe das aves.
Também há cerca de um ano, Bernd Wilke, da Hannover Re, no artigo que escreveu para o dossier da FULLCOVER meses antes de a pandemia nos atingir, alertava para a emergência de pandemias como consequência do degelo dos pólos. Também a desflorestação, que tem destruído os habitats de incontáveis espécies, as tem trazido para mais perto dos seres humanos, num convívio artificial e forçado cujas consequências já se estão a fazer sentir.
Muito se escreveu já sobre o tema e, se bem que alertar seja fundamental, não basta. Há muito que sabíamos o que há a fazer, mas uma espécie de inércia, um "empurra com a barriga” em que "valores mais altos se levantam”, fez com que muito pouco fosse feito. Quantas vezes sabemos que a mudança é necessária, mas não temos coragem para a fazer? Até que algo nos mostra, por vezes de forma brutal – como está a ser o caso desta pandemia – que não há outro caminho, ou melhor, o outro caminho existe, mas pode ser o da aniquilação total – a prazo ou nem tanto.
No seu magnífico livro "L’économie de la vie”, publicado em Junho deste ano, Jacques Attali faz uma análise lúcida e exaustiva dos antecedentes e causas da pandemia e das suas consequências a curto, médio e longo prazo. Sobre a reacção mundial de pânico à mesma, e de encerramento, refere que podia ter sido diferente se tivesse havido alguma visão estratégica por parte dos líderes mundiais, se não tivessem desprezado os sinais de alerta e se tivessem actuado com a rapidez que se impunha.
Não o fizeram, desencadeando a hecatombe económica da qual ainda só estamos a ver a ponta do icebergue, segundo muitos. Attali também liga as pandemias às alterações climáticas, referindo que "as mudanças ecológicas não são um tema isolado. Uma das suas consequências seria o agravamento dos riscos de pandemias…”. E dá-nos vários exemplos, referindo como as doenças infecciosas serão agravadas pelo aumento das temperaturas, das taxas de humidade, pela multiplicação de resíduos e pela poluição dos mares. Afirma que "um clima mais quente poderá diminuir as respostas imunitárias dos seres humanos, e torná-los mais vulneráveis às epidemias de gripe. Com o aquecimento do planeta, a gripe poderia efectivamente prolongar-se por todo o ano, deixando-lhe assim mais tempo para sofrer mutações”. E prossegue, referindo que "os mosquitos, cujos hábitos serão profundamente alterados pelas alterações climáticas, provocarão novos tipos de pandemias…”, exemplificando com o mosquito portador do dengue, que se poderá instalar em latitudes mais ao norte (como foi exemplo, há poucos anos, um surpreendente surto de dengue na Ilha da Madeira!). Também prevê que se possa verificar um regresso do paludismo à Europa, um século após a sua erradicação.

Mudar a sério
Com tantas ameaças à nossa volta, com o "massacre” diário de más notícias (há dias lia um artigo muito interessante que perguntava, em certo tom de desespero, "para quando, as boas notícias?”), será que, como humanidade, como civilização, chegámos ao fim da linha? Pessoalmente, quero crer que não, e Jacques Attali também nos deixa umas palavras de esperança. Mas, como escreve, só haverá esperança se houver uma mudança radical, se passarmos da "economia da sobrevivência” à "economia da vida” que, na sua opinião, deverá ser representativa, proteger a vida, ser simples, justa, e, finalmente, ter em conta o interesse das gerações futuras.
De forma mais concreta, refere um conjunto de urgências, como seja o da criação de um grupo de seguimento de pandemias e de preparação para novas ameaças ou a orientação dos investimentos públicos e privados para uma lista de sectores considerados prioritários face à presente conjuntura, como a saúde, o alojamento, a grande distribuição, e-commerce e digital. Esses sectores deverão ser valorizados, fomentando-se a transição e reinvenção dos restantes, aqueles que ficaram para trás devido à pandemia e que poderão nunca recuperar. É igualmente fundamental acompanhar, em particular, a transição do sector do turismo; acelerar a transição para uma energia limpa, não
dependente do carbono; reorientar os investimentos urbanos em cidades de média dimensão e territórios rurais e, finalmente, considerar como anticonstitucionais todas as decisões que vão contra
o interesse das gerações futuras, entre outros.
Jacques Attali termina referindo que tem de haver "vontade de criar um mundo onde estas catástrofes, sem dúvida inevitáveis, estejam tão bem preparadas que não precisaremos de nos preocupar com elas, nem antes, nem durante. Por nós; pelos nossos filhos, netos; e pelos netos dos nossos netos”. E conclui com uma mensagem de esperança: "Tantas coisas tão belas, maravilhosas, nos esperam, se hoje tomarmos conta delas”.

E, sim, cada um de nós pode fazer a diferença. Porque cada um de nós conta. Está nas nossas mãos salvar a Terra e, em última instância, salvarmo-nos a nós próprios.



Paula Rios, MDS Group CEO Senior Advisor, Editor in Chief FULLCOVER
Publicado no suplemento Mais Seguros do Vida Económica
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